Duas linhas, ou melhor, “Two Lines”. E agora?

Compartilhar no facebook
Facebook
Compartilhar no whatsapp
WhatsApp
Compartilhar no pinterest
Pinterest
Compartilhar no email
Email
Compartilhar no print
Print
Imagem: Call the Midwife – Copyright BBC
Imagem: Call the Midwife – Copyright BBC

Meu marido e eu mudamos para Inglaterra no início de 2016. Havíamos acabado de nós casar e como quase todos brasileiros que se mudam para o exterior, rachamos de trabalhar todos esses anos. E foi só nisso que pensamos mesmo. Trabalho, trabalho e trabalho. Quando então, dia 7 de dezembro de 2018, duas linhas apareceram no teste de gravidez. E agora?

O primeiro pensamento foi gratidão. Felicidade sem fim! Fomos muito abençoados. Mas logo em seguida um baita medo, um frio na barriga. “Espera um pouco, estou em outro país! Como é que vai ser isso?”

Eu sempre fui daquelas pessoas que morria de medo de médico – injeção NEM PENSAR. O pensamento sobre o parto me assombrava. E em outro país então? Sem a família por perto? Sem os médicos e o sistema que conhecemos? Outros remédios, outros métodos… Aqui, o sistema que todo mundo usa é o público! Será que vai funcionar? O tão temeroso PARTO NORMAL! Wow!

Eu tinha viagem marcada para Portugal duas semanas depois disso. Umas merecidas férias depois de muito tempo trabalhando feito maluca após entregar um projeto que estava trabalhando desde que cheguei aqui. Eu tinha que ir.  E ainda nem sabia se estava tudo bem, como fazer um ultrassom, como conversar com algum professional da saúde. Estava muito cedo para contar para qualquer pessoa da família ou amigo. Quanta ansiedade!

Era final de ano. Não tinha absolutamente NENHUM horário disponível para atendimento, muito menos ultrassom. Consegui um apenas na volta da viagem. Não tinha jeito, ia ter que segurar a ansiedade. A viagem veio a calhar para esquecer um pouco – mas lembrava da gravidez a cada ida a padaria, o cheiro de canela que sempre amei tinha ficado insuportável! Nós nos distraímos dentro do possível, naquela terra linda. Mas ao pousar no Reino Unido, o coração começou a acelerar de novo.

Pela rede pública, a consulta só poderia ser feita entre 8 e 12 semanas. A ansiedade era muito maior que isso. Então meu primeiro ultrassom teve de ser numa clínica privada e, mesmo assim, só consegui para a semana seguinte. E lá estava ele, coraçãozinho batendo a mil. O meu e o dele. Foi amor à primeira vista! Eu nem consigo descrever o que eu senti naquele dia. Só alguém que já passou por isso sabe entender a benção que é ter vida dentro da gente.

O REINO UNIDO E AS MIDWIVES

Lá cheguei eu para a minha primeira consulta. No Brasil, a gente faz isso diretamente com um obstetra ou um ginecologista. Aqui, são as Midwives*. Você já ouviu falar nelas?

Existe uma série muito bacana da BBC chamada “Call the Midwife”. Coincidentemente, foi a primeira série que assisti quando cheguei aqui, para treinar a escuta do inglês britânico. A serie retrata a inserção das Midwives, no sistema de saúde inglês, durante o pós-guerra. E pouca coisa mudou até hoje, as consultas e análises para as mulheres continuam a ser feitas por elas. Uau, meu seriado favorito ia virar realidade!

Cheguei na sala para a minha primeira (longa) consulta e parecia que eu tinha sido teletransportada para 1950. Tinham duas: uma mais experiente e outra aprendiz. Meu marido foi comigo. Foram muitas perguntas mesmo, principalmente sobre condições de saúde das famílias, questões socioeconômicas e até quando meu marido saiu para ir ao banheiro, me perguntaram se estava tudo bem entre mim e ele, se eu tinha suporte dele em casa! (Elas me disseram que por Lei têm de perguntar isso!)

Tiraram meu sangue na sala mesmo para analisar o básico e foi isso! Nenhuma análise “física”. Tão diferente do tratamento VIP do Brasil! E ali eu percebi que ia ter de pisar no freio com a ansiedade. Não ia ter consulta toda semana, não ia ter ultrassom toda hora. Primeira lição da maternidade!

A próxima e todas as outras consultas foram com a midwife que me acompanharia pelo resto da gravidez. Beth – uma ruivinha baixinha, muito delicada, moderna e cabeça aberta – sabia tudo sobre sistemas e tratamentos alternativos e para relaxamento. Eu tive muita sorte! Ela foi maravilhosa até o final. Eu até tenho ela no Facebook e envio fotos do meu filho para ela esporadicamente.

Logo na primeira consulta eu expliquei para ela de onde eu vinha e que no Brasil, 55,5% dos partos são cesáreas (segundo dados do Ministério da Saúde). Em hospitais particulares, a taxa pode chegar a 84%. Para se ter uma ideia, o índice total nos EUA é de 32.9%. Atualmente, o Organização Mundial da Saúde estima que a cesárea seria necessária em somente 10% dos partos. Ela já conhecia esse cenário, o Brasil é muito famoso pelo alto índice de cesarianas e, pasme, pela paçoquinha (haha)! Ela conhecia e gostava muito do nosso famoso doce de amendoim!

Eu morria de medo de cesárea, mas também morria de medo de parto normal. Só que de algum jeito, em alguns meses, o bebê teria de nascer. Ela me tranquilizou e disse para me informar bastante, que eu teria tempo para aprender sobre tudo. Ela mesma daria um curso gratuito pré-natal. E foi isso mesmo que eu fiz. Fiz o curso com ela junto com alguns casais em um dos quartos de parto humanizado do hospital da cidade vizinha, no qual eu viria a dar à luz em alguns meses. Aquilo me animou pra caramba! Ali eu tive muita informação sobre o parto e o quanto isso era melhor para o bebê e para a mãe – as analgesias, opções de mobilidade, a sensação de ter escolha e participar do parto. A ideia de não ter controle algum me dava calafrios, eu imaginava uma “rã de laboratório escolar” sendo dissecada com a barriga toda aberta. Fora que o quarto era maravilhoso!

Tudo que a ideia de midwives trazia de estar em 1950, a sala de parto trazia ao contrário: muita tecnologia e humanização. Era uma banheira enorme no meio, luzes coloridas de ambientação, música ambiente com playlist escolhida, climatização e o mais importante de tudo: privacidade.

Naquele dia, já estava escolhido. Parto normal, aí vamos nós!

Todas as consultas seguintes foram com a mesma midwife, o que me deixou mais e mais confiante. Além do curso feito com ela, fiz mais dois sobre o mesmo assunto. E também fiz um curso de hypnobirthing**. Informação é algo que realmente nos faz mais fortes. E foi diminuindo bastante a ansiedade que eu tinha. E que foram FUNDAMAENTAIS para o trabalho de parto e para estar preparada para as opções deste grande dia, tão inesquecível!

No meu próximo post, vou contar sobre a primeira parte da experiencia do parto. De esperar as contrações em casa, das idas ao hospital e como lidar com um bebê que chega “depois” da data prevista de parto.  Beijos e até lá!

 

*Midwife: é uma profissional de saúde altamente qualificada que fica “com a mulher” durante a gestação, parto e pós-parto.

**Hypnobirthing: é um método que envolve uma série de técnicas., como hipnose, afirmações positivas, relaxamentos e meditações conduzidas, entre outras.

Artigos relacionados

Assine nossa newsletter


Siga-nos

Publicidade

Mais lidos