Minhas experiências de parto no Canadá

Por Fernanda Salla
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parto
Imagem: acervo da colunista

Nunca escrevi um relato de parto. Contei para algumas amigas sem filhos sobre como foi, mas evitei falar de mãe para mãe, com todos os detalhes. Ouvia muito de outras pessoas que contar nossos sofrimentos nesse processo pode cooperar para causar ainda mais medo nas mulheres e tirar delas o direito a protagonizar esse momento tão importante. Críticas semelhantes surgem direcionadas às pessoas que falam sobre maternidade real. Elas são acusadas de não amarem seus filhos ou de serem ingratas. Apesar de eu ser totalmente favorável a desromantizar a maternidade — como vocês já devem ter percebido por alguns textos que publiquei anteriormente por aqui –, a verdade é que me vi sem saber muito como agir em relação a falar ou não sobre os partos das minhas duas filhas. 

Entendo que, mesmo achando importante democratizar as informações e experiências sobre dar a luz, para que as mulheres possam ter consciência de suas escolhas, não sejam enganadas, mas também não fantasiem esse dia — comparando a própria experiência com a de outras –, entendo que partimos de problemas diferentes quando se quer desmistificar o ato de maternar e o ato de parir. Enquanto a maternidade é praticamente imposta às mulheres — temos de amá-la e aceitá-la, e ai de quem não queira ser mãe –, o direito ao parto foi retirado delas. Cultua-se o medo, o “não vamos dar conta”, o “não somos capazes de fazer isso sozinhas”. O resultado é um número absurdo de cesáreas desnecessárias, especialmente no Brasil. Nesse sentido, é preciso um esforço quase que político para reconectar mulheres com seus próprios corpos e com a biologia do parto. 

Enquanto penso em como compartilhar as minhas vivências sobre o assunto de maneira mais aprofundada e detalhada, queria contar sobre como é parir aqui no Canadá. Isso porque eu senti, por minhas experiências, que há uma tendência de priorizar o parto com menos intervenções. A cirurgia cesariana não é realizada de forma eletiva, mas é feita intraparto quando necessária — claro que há exceções, dependendo do local ou do médico. Isso não impede que o número de cesáreas esteja acompanhando o aumento global, mas ele ainda é muito menor do que no Brasil. Enquanto nosso país natal é o segundo em quantidade de cesáreas no mundo, com 55% dos nascimentos ocorrendo por essa via, no Canadá, essa taxa é de 28,8%, de acordo com estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS). Para se ter uma ideia, desde 1985, a comunidade médica internacional considera que a taxa ideal seria entre 10% e 15%.

Vou contar, abaixo, como foi ter dois partos no Canadá, como funciona o sistema de saúde, o que é priorizado, quais são as opções para as mulheres e como é o pré-natal. Espero que eu possa ajudar um pouco as tentantes e grávidas que moram aqui, além daquelas pessoas que pensam em imigrar. 

Preparação

Para quem não sabe, o sistema de saúde canadense é público. Aqui, cada pessoa tem um fisicista responsável, e é ele que atende o paciente antes de qualquer especialista. Todo meu pré-natal e o meu parto foram feitos de forma gratuita. As consultas são mensais e seguem uma lista de protocolos padrão: pesar, checar pressão arterial, medir a barriga e conversar sobre os exames que serão feitos em seguida. Por via de regra, são pedidos somente três ultrassons durante toda a gestação, além dos exames para diagnosticar diabete e outros de sangue previstos para esse período. Já na primeira vez, me perguntaram se a gravidez era esperada e se era desejada. Trata-se de uma regra no atendimento, já que o aborto é legalizado, independentemente do motivo. 

Na cidade em que moro, Prince George, é oferecido um curso pré-natal organizado por profissionais de saúde no valor de 100 dólares canadenses, em que uma doula ou enfermeira fala sobre as etapas do processo de parto, opções não farmacológicas de alívio da dor, exercícios para ajudar no bom posicionamento do bebê, além de oferecer uma visita às instalações do hospital para conhecer, já que é o único da cidade. Também aprendemos sobre amamentação e alimentação durante a gestação.

O pré-natal é feito pelo médico de família até a metade da gravidez e depois a gestante é encaminhada para um obstetra. A partir das 37 semanas, passamos a ser atendidas semanalmente, a cada dia pelo profissional que estará de plantão naquele período — não sei se isso ocorre em cidades maiores, mas na minha, que tem somente 70 mil habitantes, é assim. A partir da 38a semana, também é oferecido para se fazer o descolamento de membrana, que é um tipo de indução não química, mas isso é totalmente opcional. Eu não quis passar por esse procedimento em nenhuma das minhas gestações. 

Parto

Não podemos escolher a equipe médica da hora de dar a luz, no entanto, existe uma central de cadastro de midwives (parteiras), que são profissionais aptas a acompanhar partos tanto no hospital quanto em casa. É possível optar por ser atendida por uma midwife de nossa escolha e de forma gratuita. No entanto, as boas profissionais são tão requisitadas, que o conselho para garantir a equipe dos sonhos é: antes de contar para o pai da criança que você está grávida, ligue para a midwife. No caso de ser atendido por médicos plantonistas, o nascimento do bebê só pode ocorrer em ambiente hospitalar. 

Aqui, só é possível dar entrada no hospital com quatro a cinco centímetros de dilatação, ou seja, quando o parto já estiver engrenado. Essa era a minha maior insegurança, pois, por mais que no curso pré-natal a gente aprenda a contar as contrações, a fim de estimar a dilatação, é muito difícil ter certeza, ainda mais sendo uma mãe de primeira viagem. Minha dica é baixar um daqueles aplicativos de celular de contar contração e deixar com o acompanhante. No hospital de Prince George, há salas de parto e quartos individuais, com banheira e outros apetrechos para serem usados durante o trabalho de parto, como bolas, arcos e tecidos, porém cada local conta com uma estrutura diferente para parir. Podemos levar quem quisermos para nos acompanhar neste momento — claro, o protocolo está diferente agora por conta do covid-19 — e comer e beber água à vontade. É possível pedir para diminuir as luzes e colocar uma música. Também podemos usar a vestimenta que quisermos. 

Nos dois partos pelos quais passei, a prioridade era deixar seguir o processo natural de dar a luz. Eu podia me mover livremente, escolher a posição que me sentisse melhor para fazer a força e pedir analgesia ou não. No entanto, por eu estar em uma cidade relativamente pequena, o anestesista não ficava de plantão no local, além de priorizar outros atendimentos que estivessem ocorrendo concomitantemente no hospital — como uma cirurgia. Dessa forma, a epidural não é uma garantia. Eu acabei não tomando nenhuma vez. Há outras opções para diminuição da dor, como a inalação de um gás específico, mas que para mim não fizeram diferença. 

A estadia no hospital, depois de um parto sem complicações, é de um dia. No caso de cesárea, essa internação pode durar até três dias. É nesse período que são realizados os primeiros exames no bebê, que além do famoso teste do pezinho, conta com checagem de audição e de icterícia. O recém-nascido não sai do lado da mãe em nenhum momento! Não existe berçário. Todos os exames são feitos no quarto, e a golden hour (a primeira hora do bebê em contato pele com pele com a mãe) é respeitada. 

Claro, como a grande maioria das experiências de parto, nem tudo é como gostaríamos. Ainda é preciso ficar atenta a propostas de intervenções desnecessárias, pois isso pode acontecer dependendo do médico. Por exemplo, há quem não faça episiotomia, outros ainda indicam em determinados casos, mesmo sendo algo que os estudos já mostram que não há eficácia. Estou relatando aqui o processo de forma pouco passional, apenas para que aquelas que queiram ter filhos no Canadá possam ter uma ideia de como tudo funciona. Porém, há muita coisa sobre as sensações, os direitos da mulher, as frustrações, o inesperado, as dores, o apoio, as pequenas negligências que acredito que seria importante ser compartilhado. Quem sabe eu ainda me encoraje a fazer isso. 

Caso você queira saber mais sobre como é parir aqui, tenha uma dúvida específica ou deseje que eu compartilhe meu relato de parto, envie um e-mail para maeabaixodezero@gmail.com. Vamos conversar!

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