Crianças canadenses com pai e mãe brasileiros: como funciona a educação bilíngue

Por Fernanda Salla
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educação bilíngue
Imagem: Canva

“Mamãe, come out!”, “Você pode me dar um copo de água, please?”, “Papai, help!”, “Two mamás, mamãe.”

Estas são algumas das frases que minhas duas filhas falam no dia a dia, sempre misturando o português e o inglês. Quando a Clarice nasceu, ficamos na dúvida se era importante que falássemos inglês em casa, para que ela se adaptasse à vida fora, ou se mantínhamos o português entre nós. Os conselhos que recebemos foram unânimes para que incentivássemos sempre nossa língua natal, pois quando ela fosse para a escola iria ser difícil convencê-la a praticá-la. E assim seguimos. Vejo hoje que está sendo uma sábia decisão e Clarice, com três anos e meio de idade, já fala com desenvoltura tanto inglês quanto português. Gabriela, de um ano e meio, segue o mesmo caminho, mesmo que ainda esteja na fase de misturar as palavras.

Eu sempre tive dificuldade com outros idiomas. Aprendi inglês tardiamente para os padrões de meus colegas de escola. Nunca tinha feito um curso específico de línguas no Brasil e só me senti mais segura depois de morar fora do país. Por isso, meu aprendizado não ocorreu com tanta naturalidade quanto ele se dá com minhas filhas. Para elas, é um processo que acontece sem que se esforcem. Trocam de língua como quem troca de assunto em uma conversa. Agora que as duas frequentam a creche, é normal trazerem o inglês cada vez mais para dentro de casa, e eu acabo me pegando abandonando o velho português em muitos momentos de brincadeira com elas.

Da mistura à diferenciação

No dia a dia, minhas filhas ainda misturam bem os dois idiomas, apesar de a Clarice, hoje, já separar perfeitamente o que é inglês do que é português. Por exemplo, tanto a Clarice quanto a Gabriela mesclam os nomes das cores, falando: pink, azul, purple, amarelo e green. Com os animais, acontece a mesma coisa: puppy, girafa, fish, cobra, cat. Essa forma de pensar da criança pequena, que mistura aprendizados, combinando saberes, é perfeitamente natural e uma das leis do desenvolvimento infantil, que vai do sincretismo para a diferenciação. Com o tempo, a tendência é que esses conhecimentos ganhem sentidos próprios. O pensador francês Henri Wallon, da psicologia do desenvolvimento, já tratava dessa questão em suas teorias. Apesar de ter estudado esses conceitos nos anos em que cobri Educação como jornalista, é fascinante ver como isso ocorre na prática.

Nosso dia a dia

Para mim, a chave para uma educação bilíngue é manter o contato das crianças com os dois idiomas de diversas formas, como na conversa, nas leituras e nos vídeos. Eu sempre leio livros para elas tanto em inglês quanto em português, sem traduzir de um para outro. Elas também assistem desenhos animados e escutam cantigas e outras músicas nos seus idiomas originais, sem ficarmos explicando muito, a não ser quando elas perguntam. Apesar de manter minha língua-mãe no ambiente familiar, quando saio na rua, me dirijo a elas em inglês, para que todos possam entender.

Notei que a Clarice tende a falar inglês com a Gabriela quando as duas estão sozinhas. É como se ela relacionasse a interação com seus pares ao idioma canadense. Quando elas aprendem uma palavra, eu não corrijo o idioma. Por exemplo, se chamam algum animal pelo nome em inglês, não tento forçá-las a usarem o nome em português em casa. Sei que, eventualmente, elas vão conhecer as duas formas e saber diferenciá-las. Acredito que esse aprendizado precisa ser algo prazeroso e natural, não algo forçado ou engessado.

O começo da vida escolar

Logo que a Clarice entrou na creche, ela quase não falava com as outras crianças e com as educadoras, apesar de já ter um enorme repertório tanto em português quanto em inglês. A gente via que era uma mistura de timidez, com não saber exatamente que língua usar e dificuldade em entender os colegas — já que é normal que os pequenos também cometam erros em suas línguas maternas e falem bastante enrolado. Não vou negar que surgiu uma insegurança: será que deveríamos falar inglês com ela em casa, para que consiga falar fora dela? Lembramos do conselho que recebemos lá atrás e seguimos em frente. Com o tempo, Clarice passou a se expressar em inglês com tanta propriedade, que já corrige minha pronúncia.

Gabriela entrou na creche com menos idade que a Clarice, sem estar formulando frases completas ainda. Portanto, absorve e reproduz as falas escutadas no ambiente escolar mais facilmente. Foi surpreendente a rapidez com que ela passou a falar determinadas expressões na língua local. A cada dia, é algo novo que sai da boca dela. Com o inglês fazendo mais parte do dia a dia das duas na creche, em casa também passamos a misturar os idiomas sem nem perceber. Se um dia tive receio de que elas não aprendessem o inglês direito, por eu insistir em falar em português em casa, hoje vejo que são elas que me ensinam. Ainda não sei como será o processo de alfabetização das meninas, mas prometo contar aqui tudo o que descobrir nesse caminho.

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