Memórias afetivas

Por Luciana Santos Tardioli
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memórias afetivas
Imagem: acervo da colunista

Quem me conhece sabe o quão forte era minha amizade com minha mãe que, ao final deste ano, terá completado oito anos de retorno à Pátria Espiritual. Sou espírita e devo dizer que essa minha visão sobre o que acontece com a pessoa após a morte do corpo me “salvou” para que eu pudesse seguir adiante após a passagem dela. E uma das formas de celebrar a vida que ela teve aqui e a continuidade dos nossos laços é ir a lugares que íamos juntas.

No último sábado, Dia dos Namorados, quando todos estavam incumbidos de comprar flores ou outros presentes para celebrar seus amores, eu me senti “guiada” a um desses locais de nosso passado. Era uma loja de sapatos. Quando criança, minha mãe sempre comprava sapatos comigo ali. Uma loja de rua, que permaneceu aberta, apesar de todas as intempéries econômicas.

Não era a primeira vez que eu retornava ali, dessa vez com meu filho (hoje com quatro anos), revivendo aquele gesto simples, de cuidado e cumplicidade de lhe comprar tênis e ver seu rostinho alegre como provavelmente minha mãe via o meu após comprar sapatos para mim.

Nesta mesma tarde, também estivemos na igreja. Tenho por hábito ir à igreja vazia, vez por outra, para trocar aquela ideia com Deus. Pedir a Ele que não se esqueça de mim e de minha família, pois sei que Ele anda bem ocupado e preocupado com a humanidade. E peço ajuda a Ele para meus problemas e minha busca eterna de auto-aprimoramento.

Meu filho tinha pego uma carteirinha de brinquedo, algumas moedinhas do seu cofrinho e queria levar à santa, para acender as velinhas automáticas (a cada moeda, uma vela acende). Por alguns anos, toda sexta-feira à tarde minha mãe ia até essa igreja com a senhora que cuidava da limpeza da casa do meu irmão (com quem ela viveu seus últimos anos) para executar aquele mesmo gesto que meu filho repetia agora sem ter a menor ideia de que a avó – que ele não conheceu – gostava tanto de fazer.

São memórias assim, marcadas para sempre em nossos corações, que nos humanizam, nos fazem ser quem somos, e dão sentido à vida. Não precisamos de grandes feitos, coisas caras, volume, excesso, barulho. De repente, tanto na igreja quanto na loja, eu me vi preenchida de saudade e de um amor que interconectava presente e passado e que me fez pensar: o que desejo transmitir de valores ao meu filho? O que quero manter de valores em mim mesma?

A todos vocês que leem meu texto, desejo esse amor transcendental, que nos faz sempre retornar ao centro de nós mesmos, a buscar aquela pequena fagulha de amor e esperança na própria humanidade. É essa fagulha que se liga uma a outra e pode mudar o mundo. Acreditem.

À memória de Ivis Santos.
13 de junho de 2021

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