Brinquedo de menino e de menina

Por Fernanda Salla
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brinquedo de menino
Imagem: acervo da colunista

“Querido Papai Noel, este ano eu quero ganhar de presente um trem de sentar em cima, uma surpresa de comer e duas coisas engraçadas.” 

Essa foi a cartinha que minha filha primogênita quis escrever no Natal passado. Não achei o trem que ela pediu, mas quando vi na loja um trator elétrico com uma escavadeira, logo pensei: nossa, isso é a cara da Clarice! Já fiquei imaginando o rostinho radiante dela quando abrisse o pacote. Eu estava tão animada, que contei empolgada para todos da família no Brasil. Foi quando escutei: “Mas precisava ter comprado um brinquedo de menino?”. Fiquei pensando em como ainda estamos presos a esses padrões e no quanto isso é nocivo. 

As limitações impostas aos gêneros vão muito além de restringir a diversão de uma criança. A construção de masculinidade e feminilidade se dá desde antes de nascermos e interfere no nosso modo de agir, de nos expressarmos e de pensarmos. Muitas vezes, ela ignora as particularidades de cada um, limita experiências, cria demandas econômicas desnecessárias e perpetua desigualdades. Antes, então, de seguirmos as indicações de gênero nos produtos e reproduzirmos falas como a que ouvi no Natal, devemos nos perguntar a razão para fazer isso e a quem interessa essa distinção. 

Questão de gosto

Desde pequena, Clarice sempre amou todo tipo de veículo, como carro de polícia, táxi, betoneira e caminhão de bombeiro. Tanto que esse foi o tema de seu último aniversário. Ela adora andar de ônibus pela cidade e esperar o caminhão de lixo passar toda semana. Além de ter uma frota de carros diversos como brinquedos, sempre vai atrás de roupas com esse motivo para usar. Quando não encontra, são os dinossauros que ganham sua atenção. Eles estampam o lençol, os pijamas, a pantufa e o copo de água, além de o animal ser uma das pelúcias que mais dormem junto com ela na cama. Esse gosto é algo próprio da Clarice. Nem eu nem o pai dela tínhamos particular interesse por esses assuntos a ponto de transmitirmos algo nesse sentido. Por outro lado, eu que nunca gostei de rosa, tentei ao máximo evitar que o tom dominasse seu guarda-roupa, mas isso não impediu que essa fosse a segunda cor de que ela mais gosta, perdendo apenas para o roxo. Essas escolhas fazem parte da personalidade da minha filha, que em vez de reprimir, escolhi acatar. 

Já a Gabriela, minha caçula, herdou todas as bonecas da irmã, que nunca brincava com elas, e adora niná-las. Elas são, sem dúvidas, seus brinquedos favoritos. Eu sempre quis criar minhas filhas sem amarras do que é considerado masculino e do que é visto como feminino, mas isso não quer dizer vesti-las e tratá-las com neutralidade o tempo todo — mesmo que reconheça que essa é uma escolha legítima para quem quer seguir assim. Vestidos ocupam lugar no armário junto com as estampas de carros e dinossauros. As meninas têm uma cozinha de brinquedo que divide o espaço com a mesa de trem, os blocos de montar e as bolas. Quero que elas possam ter escolhas e sejam conscientes do que está por trás da divisão de gênero. Basta prestar atenção um pouco ao redor para ver que o cerne da questão não é a criança, mas fatores que independem de suas características biológicas, como interesses políticos e econômicos. Afinal, que mal faz incentivar que meninas brinquem com carrinhos?

Construção social e interesses econômicos

Ao buscar mais informações sobre esse tema, encontrei diversos artigos e livros que demonstram como o gênero é algo construído. Historicamente, o estabelecimento da cor rosa como sendo de menina e do azul de menino, por exemplo, é recente. Até o início do século 1920, as crianças pequenas costumavam ser colocadas em vestidos brancos, independentemente do sexo. Mais para frente, mesmo com o uso dos tons de rosa e azul para os pequenos, não havia unanimidade sobre o mais adequado a cada gênero. Tanto que um artigo da revista Time em 1927 mostrava que metade das lojas de departamento norte-americanas entrevistadas recomendava rosa para meninos e azul para meninas. O rosa foi associado ao feminino por algumas figuras históricas e popularizado comercialmente nos anos 1980 por uma estratégia de marketing (saiba mais no livro Pink and Blue: Telling the Girls From the Boys in America, de Jo B. Paoletti). 

A economia, aliás, é um fator primordial na perpetuação dessa ideia, já que diversos estudos mostram que roupas, brinquedos e demais produtos feitos para mulheres são mais caros que os destinados aos homens. Isso é conhecido como pink tax (taxa rosa, em tradução livre para o português). Segundo um levantamento da ESPM feito em 2018 no Brasil, roupas de bebê femininas chegam a ser 23% mais caras que as masculinas. Resultados parecidos foram encontrados em pesquisas de outros países. De acordo com investigação feita pelo jornal britânico The Times, há produtos que ficam mais custosos apenas por serem rosas, como canetas e peças de vestuário. 

No Canadá não é diferente. Sempre encontro calças e moletons mais em conta na seção masculina das lojas infantis. Fora a variedade de cores e temas, que é infinitamente maior na parte destinada aos meninos. Enquanto nos corredores para meninas o rosa domina a paleta com desenhos de princesas e unicórnios, do outro lado vemos um enorme colorido com todos os tipos de animais, esportes e profissões representados nas roupas para o sexo oposto. No entanto, vejo aqui muito mais meninas sendo incentivadas a fazerem esportes de todos os tipos — algo que, no Brasil, é mais associado a ser coisa de menino. Talvez pela cultura de se praticar atividades ao ar livre desde cedo (conto um pouco sobre isso na coluna anterior). 

Impacto na desigualdade de gênero

Para além de ficar refém do mercado — e perder alguns bons tostões —, a perpetuação de padrões de gênero pode prejudicar o desenvolvimento e o futuro de nossos filhos. Primeiramente, ela ignora aspectos que fazem parte da personalidade de cada indivíduo. Como no caso da Clarice que, mesmo amando carros desde pequena, deveria se contentar em não ganhar o brinquedo preferido por não ser tido como algo feminino. Estudos das áreas de psicologia e pedagogia mostram ser importante que as crianças tenham contato com brinquedos variados, como os de construção, que incentivam habilidades espaciais e de resolução de problemas, os simbólicos — a exemplo dos fantoches —, que exercitam práticas sociais, e as atividades artísticas, que promovem a construção de habilidades motoras.

Uma olhada rápida pelas prateleiras das lojas de brinquedos já evidenciam que os produtos voltados às meninas são muito mais ligados ao cuidar, já no caso dos tidos como masculinos desenvolve-se muito mais capacidades espaciais e de raciocínio. De acordo com pesquisa de 2015 conduzida pelo psicólogo Andrew Meltzoff, da Universidade de Washington, já predomina entre crianças ainda pequenas a percepção de que meninos são mais aptos à matemática e que meninas são melhores em atividades de leitura, por exemplo. Deixamos de incentivar aspectos importantes do desenvolvimento infantil por limitações que nada têm a ver com a biologia do corpo humano, e sim com imposições econômicas e patriarcais.

Essas ideias aparentemente validadas pela natureza são, na realidade, construções sociais que limitam o campo de possibilidades das mulheres, as afastando do fazer científico ou de posições de liderança. No mercado de trabalho, ainda somos direcionadas a profissões relacionadas ao cuidar e que pagam menos. Mesmo quando exercemos a mesma função que um homem, de modo geral somos vistas como de menor competência, ganhando um salário inferior. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nossos rendimentos representam 76,5% do salário da população masculina. As funções domésticas são naturalizadas como femininas, afastando ainda mais a mulher de cargos remunerados, ou sobrecarregando sua carga diária. 

Sei que essa discussão sobre gênero vai muito além da escolha do brinquedo de Natal da minha filha. O problema não é uma menina adorar rosa e querer um quarto de princesa, mas sim quando ela é condicionada a isso. É preciso entendermos as individualidades de nossas crianças e apresentarmos para elas a diversidade existente no mundo. Isso vale para roupas e brinquedos, mas também para as diferenças culturais, sociais, de pensamento, de crenças, entre outras. Também tenho plena consciência de que preciso ainda percorrer um caminho longo para desconstruir em mim diversas ideias equivocadas acumuladas ao longo da minha vida. Mas dizem que, quando temos filhos, é como se aprendêssemos tudo outra vez. Então, espero que, a cada passo, eu possa refletir, me reinventar e aprender junto com a Clarice e a Gabriela como fazer um mundo mais igualitário, inclusivo e justo. Hoje, na minha casa, brincar de carrinho não é coisa de menino ou de menina. É, sim, coisa de Clarice — e de Gabriela, se ela assim também quiser.

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